Para onde foi o teu dinheiro este mês?
Por José Pereira · Conselhos do Consultor
Se somas as tuas despesas e o total dá menos do que ganhas, mas no fim do mês não sobra nada, há uma linha que te falta calcular. Chama-se não alocado: o dinheiro que entrou, não foi para despesa nenhuma e também não foi poupado.
Calcula-se assim: rendimento menos despesas menos poupança. Na maioria das famílias portuguesas esse número é de centenas de euros por mês, e quase ninguém sabe que existe. No fim desta página tens uma folha gratuita que faz esta conta por ti.
A conta que quase ninguém faz
Pergunta a alguém quanto ganha. Sabe de cor. Pergunta quanto gastou no mês passado. Diz um valor aproximado, e costuma acertar na ordem de grandeza.
Agora pergunta quanto sobrou, e para onde foi. Silêncio.
Esse silêncio não é falta de inteligência nem de rendimento. É falta de uma conta. As folhas de orçamento que andam por aí somam despesas e param aí: dizem-te que gastaste muito, coisa que já sabias, e não te dizem o que fazer a seguir.
Para o quadro ficar completo faltam três números, não um:
- O que entrou. Ordenados líquidos, subsídio de alimentação, rendas recebidas, extras, apoios.
- O que saiu. Todas as despesas, incluindo as anuais, no mês em que as pagas de verdade.
- O que foi para poupança. Só conta o que saiu mesmo da conta à ordem para uma poupança, um PPR, investimento ou amortização.
O que é o não alocado
É a subtração desconfortável:
Não alocado
Rendimento menos despesas menos poupança
O que fica nessa linha não foi gasto em nada que saibas identificar e também não foi guardado. Evaporou-se.
Não é dinheiro roubado nem um erro de conta. São os levantamentos que não te lembras de ter feito, os pequenos gastos que nunca entram na folha, as compras que não classificaste, os meses em que gastaste mais do que a média sem dar por isso. Espalhado, parece nada. Somado ao ano, costuma ser a diferença entre ter fundo de emergência e não ter.
E é por aqui que se começa, não por cortar o café.
Um exemplo com números
Um casal com 2.700 € líquidos por mês. Não se considera esbanjador, nunca esteve em incumprimento, e sente que “não sobra nada”.
Valores ilustrativos, para mostrar a mecânica da conta.
Quase quatro mil euros por ano sem destino conhecido. Não é um caso extremo, é o caso típico de quem nunca fez esta conta. E repara no que muda quando o número aparece: a conversa deixa de ser “temos de poupar mais” e passa a ser “temos de perceber onde estão estes 333 € por mês”.
Os três rácios que interessam
Depois de teres os três números, há três leituras que valem mais do que todas as outras.
| Rácio | Como se calcula | Como se lê |
|---|---|---|
| Taxa de esforço | Prestações e rendas a dividir pelo rendimento | Até cerca de 30% tens folga. Entre 30% e 35% é aceitável, sem espaço para crédito novo. Acima disso, qualquer imprevisto passa a pagar-se a crédito. |
| Taxa de poupança | Poupado a dividir pelo rendimento | Abaixo de 5% não muda o teu futuro. Entre 10% e 20% é onde começa a fazer diferença a sério. |
| Fundo de emergência | Saldo disponível a dividir pela despesa mensal média | O alvo mínimo são 3 meses de despesa. Abaixo de 1 mês estás a uma avaria de distância de pedir crédito. |
Estes intervalos são referências indicativas de boa prática, não regras aplicáveis a toda a gente. Um trabalhador independente com rendimento irregular precisa de mais fundo de emergência do que um funcionário público. Um casal sem filhos aguenta uma taxa de esforço mais alta do que uma família de quatro.
Como fazes a tua em cinco minutos
- Abre o extrato dos últimos três meses. Três, não um. Um mês isolado engana, porque há sempre despesas que só aparecem de vez em quando.
- Escreve tudo. Incluindo o que te envergonha. Uma folha com que mintas não serve para nada, e ninguém vai ver isto além de ti.
- Mete as despesas anuais no mês em que as pagas. O IMI, o IUC e os seguros não se diluem pelo ano na tua conta bancária. Doem todos no mesmo mês, e é assim que têm de aparecer.
- Soma o que foi para poupança. Separado das despesas, porque poupança não é despesa.
- Subtrai. E olha para o número que sobra.
Os erros que estragam a conta
- Registar o que devias ter gasto em vez do que gastaste. O orçamento otimista não serve; serve o histórico real.
- Contar a poupança como despesa. Passa a parecer que não sobra nada, quando na verdade estás a guardar.
- Esquecer as despesas trimestrais e anuais. São exatamente as que te apanham desprevenido.
- Desistir ao segundo mês. O primeiro mês é o mais chato e o menos útil. É ao terceiro que os padrões aparecem.
A folha que faz isto por ti
Fiz um mapa de gastos pessoais que já traz esta conta montada. Preenches as células amarelas e ele devolve-te o não alocado, os três rácios e o peso de cada categoria no que ganhas, com a leitura escrita ao lado e sem dourar a pílula.
É gratuito. Não é uma aplicação, não pede acesso ao teu banco e não é subscrição.Descarregar em Excel
Ao clicares no Google Sheets recebes uma cópia própria e privada. O original não é partilhado com ninguém.
O que tem lá dentro
Perguntas frequentes
O que é a taxa de esforço?
É a fatia do teu rendimento que vai para prestações de crédito e rendas. Calcula-se dividindo o total dessas prestações pelo rendimento líquido e multiplicando por cem. É o indicador que os bancos olham em primeiro lugar quando avaliam um pedido de crédito, e é também o melhor termómetro do teu risco pessoal.
Quanto devo ter no fundo de emergência?
A referência habitual são três a seis meses de despesas, num sítio de onde consigas tirar o dinheiro no dia seguinte. Se tens rendimento irregular ou dependes de um só ordenado em casa, aproxima-te do limite de cima. Acima de seis meses parados, o excesso começa a perder valor para a inflação.
Preciso de saber usar Excel?
Não. Só escreves números nas células amarelas. Tudo o resto são fórmulas que já lá estão. Se preferires, abres a versão em Google Sheets no telemóvel ou no computador sem instalar nada.
De quantos meses preciso para tirar conclusões?
Um mês dá-te um retrato e serve para começar. Três meses dão-te padrões, que é o que interessa. Um ano completo mostra-te as despesas sazonais, como o regresso às aulas, os seguros e o Natal, que são normalmente as que desequilibram o orçamento.
E se o meu não alocado der muito alto?
É normal na primeira vez, e não quer dizer que estejas a esbanjar. Quer dizer que há gastos que não estão a ser registados. Nos meses seguintes, com o extrato à frente, o número tende a baixar à medida que as despesas encontram categoria. O que sobrar depois disso é que é o teu verdadeiro desperdício.
Os meus dados ficam guardados nalgum lado?
Não. A folha é tua, fica no teu computador ou na tua conta Google, e ninguém além de ti lhe acede. Não há registo, não há conta a criar e não há ligação ao teu banco.
As outras ferramentas da casa
Depois de teres o teu mapa feito, estas são as contas que costumam vir a seguir. Todas gratuitas, todas sem registo.
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